Arte - dom inato ou aprendido?
Uma trajetória de alguém que desde sempre respirou a arte
Ainda pequena, por volta de meus sete anos de idade, enquanto eu desenhava tranquilamente um Pato Donald, meu tio Assis aproximou-se de mim e disse:
- Olha vc é uma artista, menina!
Essa história me marcou muito. Além do comentário de incentivo, que me pegou de surpresa, também porque naquela época, tudo o que eu tinha de recursos para me expressar era uma daquelas caixinhas de seis lápis pequeno. E ele, na sequência, me disse:
- Você vai ganhar uma caixa de lápis grande de doze cores!
Nao é preciso dizer que aquilo alavancou o que já existia em mim: a arte como forma de expressão e prazer. Sem falar na confianca, no respeito no reconhecimento, no amor-próprio no alivio etc etc. A arte é tudo isso e muito mais em minha vida.
Essa é minha lembrança mais antiga, por isso sempre a trago comigo, quando refaço minha trajetória de vida.
Aquele fato só começou o que nunca deixou de estar entrelaçado em minha vida e ser a minha marca. Fui crescendo e comigo foi crescendo a capacidade: desenhos cada vez melhores e o interesse só aumentando.
Assim, aos dezenove anos fiz curso de tela na escola oficina de artes em Santo André. Estava com casamento marcado para dezembro, mas em agosto fiz questão de me matricular e iniciar o curso com objetivo de continuar em frente, depois de casada.
Meu marido pagava meu curso com carinho mas nao me incentivava a fazer da atividade artística uma carreira, porque para ele não havia necessidade de que eu também trabalhasse, uma vez que ele provia bem a família.
Também fiz obras de arte em meu casamento: tive duas filhas princesas cujo rascunho e fórmula perdi e nunca fiz nada igual de novo. Hoje tenho netos e isso é absolutamente especial.
Continuando. Naquela fase em que meu marido também não via em mim a verdadeira necessidade de exercer e expandir minha arte para o mundo, meu pai também expressava o mesmo entendimento, porque em uma dessas conversas de familia, disse ele:
- Para que você faz esse curso? Se o que voce vai fazer é (literalmente) 'limpar bundinha de bebe'?
Pensei comigo: "poxa até meu pai não entende?
Mas o tempo passou: comecei a pintar quadros e inclusive a vender alguns deles.
Foi então que meu pai entendeu, reconhecendo minha atividade artística num comentário posteriormente: - E não é que deu certo?
Novamente pensei comigo sobre o assunto mas guardei para mim criei as filhas tenho meus netos mas continuei caminhando sempre lado a lado com a arte. Fiz vários cursos em Peruíbe; participei de vários concursos em Santo André e em Peruíbe, quando vim morar em 1999 e tirei minha primeira carteirinha de artesã da SUTACO.
A cidade de Peruíbe me inspirou no trabalho artesanal reunindo técnicas de pintura, bordado, aplicação, tricô e crochê. Desde 2014 faço parte da UMPES – União das Mulheres Produtoras da Economia Solidária e no ano 2000 comercializava no Armazém das Artes de Peruíbe e fiz cursos por lá. Tenho carteirinha de Emprendedor Artesão do Estado de São Paulo e do PAB – Programa do Artesanato Brasileiro desde 2018.
A caminhada continua, mesmo que em alguns momentos eu tenha dado umas pausas estratégicas que a vida sempre pede seja por questões de saúde ou problemas de família.
Para encerrar faço a reflexão se a arte é dom ou competência adquirida. Não tenho certeza se não é tudo isso junto ou qualquer outra coisa. O que posso dizer é que comigo ela teve um encontro marcado e nunca mais me deixou.